sexta-feira, 30 de março de 2012

Nem a morte vai nos separar

Imagens,fotografias e retratos de um romance que não tem mais volta.Só restou imagens em minha mente. Sonhando acordada eu lembro dos bons momentos, dos beijos, dos abraços do seu cheiro. Lembro como foi bom. Momentos únicos em minha vida. Momentos ruins também superamos, mas minhas imagens não mostram isso.

Saudade!Saudade de um tempo que foi e não voltará. Saudade de tudo que passou. Saudade até das discussões em meio a uma noite de tempestade. Eu saía correndo na chuva e com a roupa molhada eu gritava que te odiava e você me confortava com um abraço sincero e seguro.

Sonhar! Sonhar para relembrar. As fotos eu já rasguei, e com nosso amor eu as enterrei. Sem vontade de viver fui te procurar. Naquele instante senti um frio na barriga, e com medo de rejeição, caminhando pela rua, relembrava das vezes em que você me agarrava e minha boca beijava com ternura, com paixão. Peguei um táxi para chegar em sua casa e no caminho eu ia chorando com o mesmo medo, o medo de ser rejeitada.

Olhava pela janela do carro e prestava atenção nos casais de namorados que eu avistava. Juntos,felizes, e eles não sabiam que o amor não é tudo isso!

Desci do táxi, paguei a corrida e olhei atentamente ao meu redor para ter certeza que eu havia chegado ao meu destino. Ao perceber que eu já estava lá, caminhando lentamente, me dirigi à entrada de sua casa, parei na porta e observei a campainha, me perguntei “- O que estou fazendo aqui?!”.

Quando virei as costas e dei o primeiro passo para ir embora, eu pensava não ter sentido nenhum estar ali, ouvi uma voz gritar meu nome. Uma voz masculina que eu de certa forma conhecia, mas não queria conhecer, uma voz por quem um dia eu já liguei pra ouvi-la. Eu lentamente me virei para trás e fui recebida com um enorme sorriso, não acreditava no que estava vendo, ele me recebia e eu com uma vontade enorme de pular e gritar ao mundo que eu o amava, tinha que me conter e ficar calada. Atentamente sorri e fiquei cabisbaixa.

-Lola!Você por aqui?

-Oi Mateus!Eu estava passando e resolvi parar em sua casa para saber como estás!

Eu estava toda sem jeito, não me movia para nada e sem graça nenhuma conversei com ele, demonstrando que estava a procura de um amor.Demonstrei uma insegurança que não devia.

-Aceita entrar um pouco e conversarmos?

-Se você não estiver nada melhor para fazer...

E ele sorridente respondeu:

-Não,não Lola!

-Então eu adoraria.

-Então pode entrar,sinta-se à vontade!

Ao entrar ele me convidou para sentar. sentei um belo sofá de couro, dei uma olhada rápida em sua casa e não deixei de perceber que ele não havia mudado nada na casa, tudo estava do mesmo jeito, até o quadro que eu tinha dado para ele, ainda estava lá. Ele me olhava tão sorridente, me deixando assim tão sem graça em meio aquela situação.

-Lola!

Eu olhei para ele.

-Aceita um café, água...?

-Aceito uma água, sim.

-Com licença, eu vou providenciar, Madame...

E riu ao falar educadamente comigo. Ele estava na cozinha e eu na sala de estar, conversamos assim, distantes até ele trazer minha água. Perguntou se estava tudo bem, e assim conversamos. Eu continuava reparando cada detalhe de sua casa, até que eu gritei:

-O tempo não passou para você, não é?

-Como assim?Do que esta falando?

-Ué,estou falando da gente, do nosso amor!

-Do nosso amor? Tem coragem de tocar neste assunto depois de tanto tempo?

Eu de certa forma estava emocionada, mais não queria demonstrar, então, eu apontei para o mural que eu havia visto na parede. O mural dizia “O melhor de mim”.

Ele me olhou sem reação, envergonhado tentou disfarçar. Mais assim que viu que não tinha mais saída, sentou-se ao meu lado.

-Por que tem fotos minhas?-eu disse,as suas eu já rasguei, e com nosso amor eu as enterrei!

-Mas eu não, -disse ele sorrindo, nosso amor em mim sempre viveu. As fotos são provas de que tudo valeu a pena, e pode ter certeza que você foi o meu melhor.

Eu assustada de certa forma disse:

-Mas por que terminou comigo então?

- Eu descobri que tinha câncer e não quis te ver sofrer. Fiquei fora por uns tempos, pois te ver ia piorar meu estado.Eu...

Eu então interrompi:

-Não diga mais nada, me de um abraço!

Mateus ficou pálido, desmaiou e caiu. Fiquei desesperada, fui ao telefone, buscar ajuda. Ao lado do aparelho vi um bloco anotações. Lá estava escrito "Dr.João". Calculei que poderia ser seu médico, sem pensar muito, liguei para aquele número.

-Alô? Disse eu desesperada, por favor eu preciso de ajuda!

-Calma senhora, me passe seu endereço que o Dr. vai direto ai.

Dei o endereço e meu nome. Preocupada, me deitei ao seu lado até o médico vir. Eu chorava compulsivamente, sem saber o que estava acontecendo.

De repente a campainha toca, sem dúvidas era o Dr.João, para o qual eu havia ligado.

-Entre Dr., graças a Deus o senhor chegou! Respirei aliviada.

-Calma senhora...?

-Lola, somente Lola.

-Ahh sim Lola, me conte o que aconteceu.

Eu estava nervosa, nem sabia o que dizer. -Estávamos conversando e ele caiu no chão quando ia me dar um abraço!

O dr. perguntou:

-Algum motivo que o deixasse ansioso?

-Não, não Dr., ele estava me contando sobre a doença, mas aí caiu quando veio me abraçar!

O Dr. sem demora ligou para a emergência,uma ambulância iria buscá-lo.

Perguntei ao Dr. se Mateus ficaria bem e ele com um olhar de tristeza respondeu:

-Acho que não Lola, o caso dele é grave ele tem câncer nos pulmões, precisará de um tubo de oxigênio para respirar!

Naquela hora eu não sabia como reagir. Por um momento tudo que vivemos se passava em minha cabeça como um filme em preto e branco. Eu assistia a ambulância chegar e tirar ele de perto de mim. Vendo ele assim, desmaiado, doente e eu sem poder fazer nada.

-Vamos menina,a ambulância já esta saindo com ele.Você vai junto conosco? Disse o Dr.

- Sim, sim.Vou pegar minha bolsa. Eu concordei.

Entrei na ambulância e sentei ao lado dele. Fui chorando o caminho todo, sem pensar em mais nada. Chegando no hospital, ele ficou internado. Resolveram deixar ele lá, pois em casa ele não iria sobreviver, não tinha máquinas de respiração e teria que ficar em observação.

Fui até a sala de espera e liguei para sua mãe. Expliquei a situação e ela sem demora, chega ao hospital.

-Como meu filho esta Lola? Não minta pra mim ,como ele está?

Ela chorava descontrolada,não conseguia se conter. Eu a abrasei e disse:

-Clama Dona Beatriz, ele vai ficar bem, vai ficar em observação!

E ali ficamos a noite toda esperando uma noticia. Foi a pior noite da minha vida. Não conseguia dormir, pois esperava uma reação dele. A manhã e chegou e nada.

Como eu havia passado a noite no hospital do lado de fora do quarto, Dona Beatriz me disse:

-Vá para casa querida,você passou a noite aqui.Vá tomar um banho, um café e se depois se quiser volte.

Eu cansada, sem dormir, com enormes olheiras e o cabelo despenteado respondi:

-Vou sim Dona Beatriz, fique bem até eu voltar!

Fui me dirigindo à porta de entrada do hospital, quando ouvi um grito de alguém chamando pelo meu nome. Era Dona Beatriz chorando e gritando para mim.

-Lola.O Mateus Lola, ele não resistiu...

E assim ela caiu no chão chorando. Eu não acreditava no que ela havia dito, fiquei sem reação e depois de 30 segundos vendo-a no chão, comecei a chorar. Me passou cenas da gente juntos no parque, cenas até mesmos íntimas e eu olhava para o céu e dizia:

-Meu Deus por quê levastes de mim o amor de minha vida?O que será de mim agora?!

Eu não sabia o que fazer, estava desesperada. Fui falar com o médico. Na sala de espera nós duas descontroladas, eu e Dona Beatriz, esperávamos o Dr.Tinha mais uma família ao nosso lado, deveriam ser de um moço que estava sendo internado ao lado do quarto de Mateus. De repente o Dr. anunciando:

- Meus pêsames aos familiares de Mateus de Oliveira!Tentamos fazer o...

Então eu interrompi:

-Mateus de Oliveira? O senhor se enganou é Mateus Bernardo dos Santos.

O Dr. olhou a ficha e disse preocupado.

- Não, aqui está Mateus de Oliveira!

Foi aí que a outra família se manifestou.

- o que? O senhor tem certeza? Meu filho não Dr.,meu filho não!

Eu e Dona Beatriz apavoradas paramos de chorar por um instante e fomos até o quarto de Mateus. E ele estava lá, respirando com um tubo de oxigênio, dormindo, sem se mover. Ele estava pálido, mas estava vivo. Nesse momento nós duas nos abraçamos e agradecemos por não ter sido ele.

Fomos para casa animadas,felizes, completamente sorridentes.

Passou-se 1 semana,eu o visitava e conversava com ele mesmo estando dormindo. Acariciava seu rosto e ficava dizendo que o amava, o susto havia passado. O Dr. resolveu marcar a cirurgia para tentar salvar a vida de Mateus.

A cirurgia foi um sucesso. Mateus estava curado e de volta em meus braços.

Quando ele recebeu alta no hospital, resolvemos ficar juntos, e aquele mural que um dia se chamou "O melhor de mim" agora se chamava "A minha vida é você, meu anjo da guarda".


Bárbara Dornelles

quinta-feira, 29 de março de 2012

Ironias do destino

Sentada à janela, primeira classe mais do que merecida, apreciei maravilhada, quase sem fôlego o esplendor visto do alto: “Europa era linda demais”, pensei. Ao meu lado, um senhor de meia idade recostava-se a meu ombro e roncava alto. Não me importei muito com isso. Com certeza não devia ser pior do que o moleque mal educado que insistia em chutar minha poltrona a cada 5 min. Mas tudo bem, eu estava disposta a aproveitar cada segundo daquela viagem, nada poria meus planos abaixo. Nada.
            Talvez eu tenha sido um pouco precipitada com tal afirmação, considerando que assim que pus os pés em terra firme, para ser mais específica, em um hotel na França. Começaram-se os problemas, primeiro na recepção do hotel.
-Mas eu liguei ontem à noite para confirmar, como pode ter dado meu quarto a outra pessoa?
-Senhorita, lamentamos o mal entendido, mas não fui informada de tal confirmação. O quarto já está ocupado, mas há uma última suíte vaga...
-Ok. E quanto vai me custar a tal suíte?
-Vejamos... Aqui está! –apontou-me um valor extremamente absurdo, com uma quantidade significativamente grande de zeros.
-Meu Deus!
-É o que temos senhorita.
            Juro que pensei em dar meia volta e revirar as ruas de Paris à procura de algo mais acessível, mas lembrei de que já havia combinado com meu irmão e alguns amigos que todos ficaríamos naquele mesmo hotel pra não haver motivos para futuras alarmações. Hesitei por um instante antes de estender a mão para alcançar as chaves.
-Eu fico com a suíte.
-Agradecemos sua preferência.
            Bastou apenas que eu abrisse a porta para descobrir que todos aqueles zerinhos na prancheta da recepcionista não estavam lá à toa. O quarto era magnífico! Meio rústico, mas perfeito. Mais bonito que aquele só mesmo na televisão.
            Depois de duas longas horas na banheira de hidromassagem, voltei à recepção para certificar-me se meu irmão já não estava no hotel, fui informada de que ele estava com a namorada no quarto 314, vizinho ao que eu havia confirmada na noite passada.
-Você por aqui maninha? –indagou-me fingindo surpresa.
-Ha- ha-ha! -Ironizei.
-Chegamos agora a pouco. –disse Jessica surgindo logo atrás dele.
            Nunca fomos muito amigas, e eu para ser sincera nunca gostei muito da forma como ela tratava meu irmão, mas quem era eu para dizer como ela deveria tratá-lo...  Se ele gostava dela eu também haveria de gostar... Minha opinião de nada interferia. Ela era a namorada dele e eu era só mais uma solteirona perdida sem rumo implorando pela companhia de alguém.
            O quarto ao lado se abriu para minha surpresa, um rapaz de calção de banho e sorriso sedutor parou na minha frente implorando por meus olhos a lhe percorrem o corpo esguio dos pés à cabeça. Senti um arrepio ao fitar-lhe os olhos. Por algum motivo ele me fez lembrar minha família, não, na verdade era algo nele que me pareceu familiar demais... Max.
-Seu ladrãozinho de quarto! O que fez para ficar com meu quarto? Paquerou a recepcionista? –gritei irritada.
-Não, isso nem foi preciso já que ela tomou partido.
-Cretino. –resmunguei.
            Max era o cunhado do meu irmão, o pouco que eu sabia dele, eram os poucos comentários que eu ouvia: ele era um galinha.  Pediu para “ficar” comigo na primeira vez em que nos vimos, no aniversário da minha prima. Recusei e ele acabou ficando com ela. Nunca soube quem ele realmente era ou o que queria de mim, mas se ele fosse metade do que eu pensava que fosse, seria melhor que mantivéssemos total distância. Eu o odiava.
            Algumas horas após o almoço, nos reunirmos no salão principal para iniciarmos o tour pela cidade francesa. Estávamos em 16 pessoas, e como ninguém chegou a um consenso sobre onde ir, nos dividimos em duplas, assim se alguém se perdesse não ficaria sozinho pelo menos. Eu estava ansiosa para ir ao Museu do Louvre, e Max seria meu “companheiro”. Será que existia muitos lagos em Paris? Não, porque assim tudo seria mais fácil! Eu fingiria um tropeço e acidentalmente o empurraria lago adentro. Ambos não sabíamos nadar, o jeito seria eu pegar um saco de pipocas e assistir a cena sem piscar. Ai que horror! Como eu era diabólica!
-Onde vamos? –perguntou me tomando pela mão.
-Ao Louvre. – respondi enquanto passava a sua frente à passadas largas.
-Por que você me odeia?
-Eu não te odeio. –menti.
-Ah não? Então me deixe ao menos pegar sua mão!
-Você é como todos os outros! Primeiro é a mão, depois a perna e depois todo o resto. Eu não sou um pedaço de carne Max, não sou o tipo de garota com quem você está acostumado a lidar... –nem me preocupei em esconder as lágrimas que agora molhavam minha camiseta.
-Eu sei.
-Desde o dia que nos conhecemos a única coisa que você tem feito é me irritar!
-Mas eu gosto de te ver irritada, ao menos vejo você sorrir um pouquinho.
-E você se diverte com isso?
-Não, você é que se diverte com isso.
            Eu odiava admitir, mas ele estava certo. Lembrei-me das vezes em que fiquei triste e ele sentou-se a meu lado, eu não queria conversar e ele sabia disso, então simplesmente permanecia ali, calado. Talvez não soubesse o que dizer ou como reagir a uma de minhas crises emocionais, mas ele estava ali, e isso bastava. Ele implicava,provocava, irritava a não mais poder, mas o tempo inteiro ele só quis chamar minha atenção. Eu o ignorei por quase quatro anos, mas agora se tornava difícil não mirar aqueles olhos e enxergar o cara intrigante que se escondia atrás do olhar com envolvente.
-Sinto muito...  Por tudo.
-Hum, esquece isso, que tal um croissant? –perguntou pegando minha mão de volta.
-De chocolate branco?
-E de que mais seria?
            Seguimos às ruas de Paris em silêncio e quando chegamos ao hotel o silêncio foi quebrado.
-Quer fazer alguma coisa em especial?
-Não.
-Boa noite Daiane.
-Boa noite.
            Pensativa, coloquei meu biquíni e segui para a piscina do hotel. Sentei-me em uma espreguiçadeira e admirei a lua brilhante em contraste com o céu negro. Ela parecia brilhar cada vez mais, como se sorrindo para mim. Eu devia estar mesmo maluca.
-Que tal um banho? –perguntou uma voz familiar.
-Não, estou bem assim Max.
-Acho que não. –disse enquanto me tomava nos braços.
-Se eu fosse você não faria isso! –gritei tentando me soltar.
-É, mas você não é então...
            Não houve tempo pra mais nada, inclusive nem para apertar o laço do biquíni. Droga.
-Hum olha o que eu ganhei –disse levantando a parte de cima do meu biquíni feito criança com brinquedo novo.
-Me devolve isso agora!
-Ui ela tá com raivinha. –brincou enquanto se aproximava de mim.
-Por favor...
-Pega.
            Virei-me e o vesti o mais rápido que pude, segui para a escada.
-Não vai, fica.
-Pra quê? Pra você tentar um afogamento? Ah não, não, pra você ficar com a recepcionista na minha frente não é?
-Olha o que você tá dizendo guria!
-Quê? –gritei forçando a água que entupia meus ouvidos.
-Vem aqui que eu ajudo a desentupir.
            Aproximei-me cautelosamente, aprendi que com o Max era o que se precisava ter, muita cautela. Nunca se sabia qual seria seu próximo passo. Senti uma de suas mãos alcançar minha cintura e a outra acariciar minha face.
-É no ouvido. –lembrei com voz trêmula.
-Sério? –sibilou antes de cobrir meus lábios com os seus. O beijo foi suave, bem diferente do que eu imaginei que seria. Foi perfeito. Ele me fitou ansioso, pronto para receber minha bofetada, mas não tive forças pra isso. Eu ansiava por mais um beijo.Não precisei dizer nada, ele havia entendido. Tomou meus lábios novamente, dessa vez de uma forma tão apaixonada que chegava a ser confundido com desespero.
-O que você quer da sua vida? –perguntou de repente.
-Em que sentido?
-Quer ficar, namorar...?
-Depois dos idiotas que eu namorei, fiquei meio na dúvida quanto a isso, eu não sou o tipo de garota que fica com o time de futebol inteiro e se acha a melhor por isso, eu sou mais na minha, gosto de ter alguém sempre por perto e não acordar com um cara diferente todos os dias entende?
-Entendo.
            E ali ficamos por um bom tempo. Ora brincando ora trocando carinhos. E foi só quando o sol ameaçou se pôr que percebemos que havíamos nos empolgado um pouco. Meu celular tocou. Sem número.
-Alô?
            Só podia ouvir uma respiração ofegante do outro lado da linha.
-Alô? –repeti.
            Nada. Devia ser engano deduzi.
            Caminhamos de mãos dadas pelo corredor deserto que dava aos quartos.
-Bom, acho que é boa noite então.
-Não, é bom dia! São 5h20 da manha.
            Deu-me um último beijo antes de me deixar na porta de minha suíte. Peguei as chaves para abrir a porta. Mas que estranho, estava destrancada. Podia jurar que a havia chaveado. A luz estava acessa também. Enfim, entrei e tranquei a porta atrás de mim, temendo a entrada de um intruso, mas não me dei conta de que o intruso já estava ali. Senti um frio percorrer-me à espinha. Congelei. Diego me encarava com desprezo, garrafa de vinho em um canivete suíço em outra.
-Bom dia meu amor! Como foi sua noite?
            Embora tivesse vontade de gritar, não consegui.Me faltaram palavras.
-Ué, ué o Max comeu sua língua?
-Como chegou aqui? Saia do meu quarto agora!
-Você quis dizer do nosso quarto né meu amor? –apertou forte meu braço, enquanto me arrastava pelo quarto.
-Não aprendeu nada na cadeia seu idiota? Se me machucar mais uma vez, é lá que você vai passar suas próximas férias de verão!– o som da minha voz foi abafado por uma toalha.
-Sabe que eu até que aprendi umas coisas bem úteis lá... Tipo isso aqui! –senti uma dor aguda no abdômen. Uma... Duas... Três vezes. Em seguida um cheiro forte de sangue.
            Diego era o último de meus ex-namorados, namoramos por menos de uma semana. Ele achava que eu devia fazer o que ele mandasse e ai de mim se não obedecesse. Terminei com ele porque ele não passava de um idiota. Agrediu-me duas vezes e fora parar na cadeia por isso, mas agora ele estava ali, mostrando que as coisas só acabariam quando ele desejasse isso.
-Foi por aquilo lá que você me deixou? –perguntou referindo-se ao Max. –Por aquilo lá?
            Tentei me desvencilhar de seus braços, mas foi em vão. Minhas pernas me traíram, meu corpo tremia desvairado.
-Que foi amor? Não tá gostando do nosso encontro romântico? Olha, trouxe até um vinhozinho pra gente. Mas sabe de uma coisa, não estou com muita sede não, acho que você vai ter que beber tudo sozinha...
            Depois disso, as coisas aconteceram rápido demais para que as pudesse compreender... Ouvi o som de vidro sendo quebrado seguido de uma dor horrível na cabeça. A última coisa de que me lembro foi do ruído da porta sendo aberta e em seguida fechada. Depois não houve mais nada, só uma completa escuridão.
 ...
            Minha cabeça latejava, meu corpo inteiro doía como se tivesse sido esmagado. Abri os olhos lentamente, seja lá onde eu estivesse era claro demais. As luzes ofuscavam minha visão. Fechei os olhos e dormi.
            Quando acordei novamente, restavam poucas luzes acessas, mas eu não precisava de luz alguma para ter certeza de que estava num quarto de hospital. Percebi que alguém acabara cochilando no sofá bem ao lado de minha cama. Era Max. Eu estava certa... Ele nunca me abandonara. Cambaleei ao sair da cama, retirei a sonda com mãos trêmulas de uma só vez, evitando fazer barulho. Peguei meu cobertor e me aproximei de seu rosto.
-Max... –cochichei.
            Ele acordou num salto, me olhou perplexo antes de me puxar para si.
-Como você está? Sentindo alguma dor? Com fome? Sede? Frio? Enjoo? –indagou-me enquanto me segurava pelos ombros.
-Ei, tá tudo bem. Eu estou aqui. –o tranquilizei.
-Volte já pra cama mocinha! Você perdeu muito sangue. –me repreendeu- Ah, vem aqui –abraçou-me.
-Fica comigo.
Claro que sim Gatinha.
Deitamos no sofá e dormimos aninhados sob o cobertor.
            Quando os primeiros raios de sol entravam por minha janela foi que abri os olhos. No lugar onde Max estivera a noite inteira havia um travesseiro grande e fofo. Eu usava a sonda novamente e ao colocar a mão no abdômen pude sentir os pontos.
-Bom dia! –disse a enfermeira enquanto abria as cortinas.
-Onde ele está?
-Oh, está falando do rapaz bonito que não saiu de perto de você desde que a trouxe pra cá?
-Foi ele quem me trouxe?
-Sim, sim. Estava muito assustado o coitadinho.
-Ele foi embora?
-Não, foi buscar seu café da manhã.
            Alguns minutos mais tarde, Max atravessava a porta com uma enorme bandeja.
-Com fome?
-Muita.
            O café estava com uma cara ótima. Suco de laranja, leite, croissants e panqueca doce.
-Porque tem uma carinha feliz na minha panqueca?
-Achei que ia fazer você sorrir também.
            Abri um largo sorriso mostrando mais uma vez que ele estava certo.
-Come tudo que eu vou avisar aos outros que você já acordou.
-O que aconteceu com o Diego?
-Ele voltou pro lugar de onde nunca deveria ter saído. Não tem mais com o que se preocupar. Coma tudo está bem?
            Foi desgastante estar em Paris e ter de ficar o tempo inteiro no quarto do hotel. A cidade era mágica, romântica e cheia de mistérios. Eu queria conhecer bem mais daquele mundo. Estávamos há três semanas ali, e até aquele momento só me lembrava de ter ido ao Louvre e de ter dado uma passadinha rápida sob o Arc de Triomphe (Arco do Triunfo).
-Quer dar um passeio hoje? –perguntou Max enquanto entrava em meu quarto.
-Claro que sim! Temos só mais o fim de semana pra aproveitar.
-Esteja pronta em duas horas.
-Sim Mestre.
            Eu estava fascinada, tanto por Paris quanto por Max. Visitamos a Catedral de Notre-Dame, ficamos admirando por horas e horas a perfeição da Pirâmide Invertida e tiramos inúmera fotos sob a Torre Eiffel. Eu estava adorando cada segundo de sua companhia...
-Fique paradinha aí mesmo.
-Aqui? –perguntei enquanto parava em frente à Torre Eiffel
-Sim, perfeito.
            Max se aproximou com aquele mesmo olhar de menino levado como no nosso primeiro beijo na piscina, lembrei-me do céu naquela noite e de como a Lua havia “sorrido” para mim...  Teria me dado ela algum sinal? Bom, sinal ou não o fato era que eu gostava quando ele me olhava daquele jeito, era como se ele dissesse tudo e ao mesmo tempo nada, como se de alguma eu pudesse me perder naqueles olhos... E talvez pudesse mesmo, não, talvez eu quisesse.
-Que foi Max?
            Ele me fitava em silêncio, como se estivesse procurando as palavras certas.
-Eu não consigo mais... –disse por fim.
-Não consegue o que?
-Viver sem você.
            Senti meu coração parar por uns instantes antes de bater de forma frenética. Foi só aí que percebi as lágrimas a inundarem meu rosto.
            Quanto tempo eu havia perdido tentando me afastar dele... Quanto tempo eu havia perdido tentando enganar a mim mesma... Eu sempre gostei dele, sempre.
-Eu te amo. –sussurrou-me ao pé do ouvido.
-Je t’aime.
-Também não precisa me ofender né!
-É eu te amo em francês seu bobo.
-Eu sei disso sua boba.
            As pessoas iam e vinham. Algumas jamais voltavam. Muitas se perdiam no caminho de volta e outras nem tentavam voltar. Mas com Max era diferente, não havia motivo para querer ir a lugar algum, eu tinha tudo de que precisava, eu tinha tudo que me era necessário. Ele sempre esteve ali, e a partir daquele momento eu também estaria...
           
Juliane Lima

domingo, 25 de março de 2012

Um eu que nao sou eu


Um Eu que não sou eu
    Mentindo eu vou levando a vida, pois com cada mentira eu formo o meu caráter, e cada com verdade descubro meu eu. Quem sou eu? Alguém com pensamentos rodeados por duvidas a todo momento. Talvez uma pessoa que você gostaria de se espelhar, moreno, estatura mediana, olhos claros, pensando bem, se eu parar para analisar, é mais do que isto. Me olhando no espelho, vejo as marcas do tempo e das controvérsias que já vivi e sem duvida, que me tornaram sinônimo do meu próprio passado.
Acho que para mim a mentira se tornou um vício. Cada dia a abstinência bate e  tenho que de alguma forma enganar alguém, nem que seja o meu cachorro, ou até mesmo meu papagaio. Que criaturas insignificantes, não param de brigar um instante. O papagaio torna incomodar  o cachorro sempre que ele passa, e para não ficar atrás o cachorro corre desesperadamente  para pegá-lo, mas sempre sai perdendo.
Ocultar os fatos é a melhor forma que tem de se sentir aliviado mesmo que sem querer eu prejudique alguém. Quando algumas vezes me pego despercebido e me perco ao explicar e sem querer minto a mim mesmo.   
     Mas apesar de eu estar sempre mentindo é para refugiar um eu que eu não sou. Até lembro do dia em que estava no ginásio e me passei por atleta, nossa, eu era a sensação de lá, eu nem mesmo acreditava na tamanha mentira que eu acabara de contar. E o pior de tudo foi dizer que eu não era o fulano de tal, ainda bem que eu estava em boa forma aquele dia. Mas muitas vezes me pergunto: o que realmente quero? E penso que sem tal atitude eu não seria nada. Obviamente que seria, mas não a pessoa importante que eu sou, eu poderia até escrever um livro com tantas historias que vivi, situações que deixei de arriscar e me decepcionei. Fazer as coisas e ver o que acontece. Mas para isto eu ainda não estou apto.
 Levar a vida sem se ariscar não vale a pena. Principalmente quando você não pode olhar para nenhuma pessoa sem a desconfiança de que ela pode te meter a boca, na minha escola eu já meti tanta gente em confusão por causa das minha mentiras, mas só que esses dias eu aprontei a pior de todas, matei aula, justo em um dia que tinha prova, depois que eu tinha ido eu me lembrei, pois então no dia seguinte, fui contar uma mentira, a professora que me deu a prova para ver se eu podia fazê-la e ela imediatamente me mandou para direção. Ligou para os meus pais para ver realmente se eu estava com hipotermia, na hora meus pais ficaram furiosos e eu tomei uma suspensão de 5 dias e o pior é que eu não podia sair mais de casa durante um mês, acho que desta vez eu paro.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Um sonho lúcido

Imagens! Imagens! Imagens! Muitas vezes, quando ainda não sabia, me indagava de onde vinham as milhares de imagens que invadiam os meus sonhos, porque era imagens do tipo que nunca tinha visto na vida real estando acordado. Tudo começou quando estava aconchegado entre meus cobertores, era inverno e a tarde fria era convidativa para cochilar, por isso peguei um livro de Augusto Cury na estante e deitei-me para ler, mas acabei dormindo. Sentindo meu corpo formigar comecei a sonhar, e nesse sonho, a todo tempo estava sendo atingido por reflexos de uma luz muito brilhante, que ao mesmo instante passava sequencialmente imagens que nada tinham a ver com a realidade. Tinha a sensação de estar caindo, depois de estar voando... Na verdade não sabia para onde estava indo, o que me confortava era a sensação de paz. Ohhh paz que já havia esquecido! Devo ter morrido! ¬ Logo pensei. Deparei-me com uma mulher linda, de olhos verdes que me dizia: " Siga em frente!" Me perdi, queria ao menos saber qual o motivo para tanto delírio. À minha volta havia deuses e demônios. Gritos uivantes e cantos suaves. Me via vestido de imperador e me via nu, e outra vez de imperador e assim por diante... Voltar, voltar, voltar era só o que em meus pensamentos eu mais suplicava. E voltei. Vi um homem deitado, de pele clara, robusto, de cabelo escuro e um nariz bem pontudo e olhos cerrados, que embaixo das pálpebras eram azuis. Este homem com semblante triste, era eu. Inerte na cama. Deitado sob o corpo que não se movimentava, era como se tivéssemos, eu e o corpo, nos desprendido eternamente um do outro. Foi quando descobri que tinha o poder de comandar meus pensamentos. Aonde eu pensava ir, era lá que eu chegava. Não titubeei, mesmo não sabendo o que estava acontecendo, se tinha falecido ou enlouquecido, fui seguindo o caminho para a lua, desertos, geleiras, Europa. Lugares lindos, mulheres incríveis, prazeres incontáveis. Mas alguém começou a gritar, gritar muito meu nome – Johnny, Johnny. Abalado pelo desconforto sobressaltei-me na cama, saí correndo em direção à porta. Não era ninguém. Acordado, sentei-me no chão, ainda perturbado com gritos povoando minha mente. E as imagens, as imagens agora eram distorcidas, delirantes, incoerentes. Fechei os olhos e esperei que tudo disso fosse embora. Mas quando abri os olhos vi com mais clareza algo familiar, que aos poucos foi se distanciando... Do que vi lembro bem pouco. Mas entendi que a única coisa que eu não podia esquecer era aquela voz amiga, que me dizia " Siga em frente! " E eu seguirei sempre!

Mentirinha

Nem sempre procuro mentir para as pessoas, mas são tantas perguntas que eu fico irritada e acabo falando o que me vem à cabeça, chega a ser engraçado.
A maioria das pessoas acredita. As que me conhecem não, pois já conhecem meu jeito. Adoro fazer isso, pois me divirto muito, principalmente com as crianças que são bem mais ingênuas. Um dia uma me perguntou onde eu estava indo e eu tive a capacidade de dizer que estava indo à Disney. Ela ficou maravilhada. Que criança não ficaria, chegou a dar dó da pobrezinha.
Mas que Disney nada, se nem na praça que é perto de casa eu vou. Minha mãe sempre reclama e pergunta por quem eu puxei assim tão mentirosa, nunca tenho respostas.
Até já faz parte da minha vida, pois minto tanto que às vezes chego a acreditar em minhas próprias mentiras.
Mentir é “legal”, tira o estresse, parece que ficamos aliviados das coisas ruins que atrapalham o nosso humor, mas às vezes não é nada bom quando falo a verdade e ninguém acredita.
Teve uma vez que eu estava passando na rua para ir à academia e vi uma casa pegando fogo e logo falei para as pessoas na rua. Ninguém acreditou, fiquei com muita raiva porque aquela era a verdade, eles deviam acreditar em mim, desta vez eu não estava mentindo, mas não, deixaram a casa queimando, coitadinha, virou cinzas.
Depois vi que mentir é um pouco ruim, mas como sou teimosa sempre invento umas mentiras, mas são mentirinhas boas, fazem bem pra saúde.
Na semana passada fui olhar um jogo de futebol, nunca joguei bola, mas para uma boa mentirosa isso não é desculpa, uns amigos perguntaram se já havia jogado e se queria jogar. Vou, não pensei duas vezes, e logo fui falando que já tinha jogado na seleção brasileira, e que eu era uma jogadora profissional e que só havia saído do tipo porque tinha enjoado de futebol.
Pra quê, foram logos insistindo para eu jogar no time delas, fiquei sem reação. Então entrei para o time, na hora do grande jogo eu não sabia o que fazia, não saía do lugar, fiquei vermelha. Elas jogavam a bola em minha direção, eu fui chutar a bola, me desequilibrei e cai de cara na grama, que vergonha, nunca fui tão humilhada em toda minha vida.
Todos me olhando. Que horrível, descobriram minha mentira e ainda por cima perdemos de 15 a 3, mentira, de 7 a 3.
Então sei lá, parei e pensei, por causa dessa mentira perdi minhas amigas e logo me veio a pergunta: será que vale tanto a pena mentir?
E agora falando a “verdade”, acho que não vale a pena, mas como sou uma ótima mentirosa, acostume-se, vem mais mentirinhas por aí.
Riticheli dos Reis
           
 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Danza del cielo nero*

Um raio cortou o céu na noite escura e rompeu as imagens que corriam pela minha mente naquele estranho sonho, me sentei na cama me perguntando o que poderia ser aquilo. Levantei e fui até a cozinha, Luna dormia pesadamente, Raini parecia estar tendo um ótimo sonho já que tinha um sorriso estampado, meu corpo estava suado, talvez devido à agitação do sonho, bebi um copo de água gelada na esperança de ficar “tonto” e dormir, como de costume. Tentativa frustrada, eu apenas ficava com a mente e imaginação presas as imagens, imagens tão reais como se eu pudesse tocá-las, era um segundo uma linda lamina azul brilhante com um centro feito de prata ricamente detalhado, tão detalhado que até parecia ser vivo, em outro instante eu via uma garota com longos cabelos negros, vestindo o que parecia ser uma armadura medieval, como as da minha família, havia a cabeça de um tigre branco ornamentada em prata detalhada e brilhante em seu peito, ela sorria alegremente e me estendia a mão, eu quase podia pegar.
Uma ideia me veio à mente como um relâmpago, poderia essa ser a chave para vencer a guerra que se aproximava? Eu não podia ficar com uma duvida dessas em um momento tão “calmo” como esse, eu precisava ir até a única pessoa capaz de me contar a verdadeira historia, uma pessoa que viu acontecer no exato momento, Clocker o ser do tempo. Depois de tomar essa decisão corri até meu quarto, peguei minhas luvas, botas, manoplas, armadura e meu capacete, escrevi um bilhete para Luna e Raini dizendo “... Encontrei uma pista, volto logo...”, coloquei o papel no mural, peguei minha mochila e desci pelo elevador até o “deck de lançamento”. Eu precisava de algo pequeno para ir ao meu destino então peguei Skysong, a minha prancha e a coloquei no encaixe cúbico da catapulta de lançamento e fui ao painel de lançamento Nº 5, programei, subi na prancha e algum tempo depois os encaixes de contenção da catapulta desceram e ela começou a correr em linha reta ao longo dos cinco quilômetros necessários para atingir os quinhentos quilômetros por hora.
Ao final do trajeto eu estava cruzando um mar de nuvens negras com raios que mais pareciam serpentes marinhas dançando pelo céu, a base pela qual eu havia sido lançado era “Nostro Giardino”, era uma ilha incrível, ela abrigava os tipos mais raros de animais e vegetação, mas ela iria ser afundada por Montrel quando ele descobriu que eu a usava como um segundo lar, foi bem difícil, mas com a ajuda da SPARK nos botamos a ilha inteira no ar!
Demorou cinco segundos para meu GPS traçar a rota até Clocker, o destino era Londres no Big-Bang, normalmente uma viagem assim levaria horas, até mesmo dias, mas Skysong era um veículo de alta velocidade, uma pessoa normal usando ela em sua potência máxima morreria de asfixia, eletricidade era meu forte então velocidade não era problema para mim, juntos podíamos facilmente quebrar a barreira do som e chegar a qualquer destino depressa, parti do meio do Oceano Pacifico e em pouco tempo estava no relógio.
Entrei pelo topo e desci até o vitral do relógio, a primeira vista parecia um lugar normal, engrenagens, o lado oposto dos ponteiros e o cheiro de óleo e graxa, mas a porta era o próprio vitral, era necessário correr e se atirar contra ele de forma suicida, afinal quem pensaria em algo assim! Eu me joguei, um paradoxo se formou e de repente eu estava em uma sala enorme com o desenho de um relógio no chão, janelas ao redor que mostravam a cidade de Londres o que me fazia pensar que estava dentro da torre do relógio, o lugar todo estava mais luxuoso do que da ultima vez que o vi, tinha peças mais rústica e ao fundo o vitral do Big-Bang, logo a sua frente havia uma pequena escadaria de mármore e no topo dela estava Clocker segurando seu relógio de bolso de prata e com seu monóculo, sem olhar para mim disse:

-Cinco minutos atrasado!
*(Danza del cielo nero – Italiano: Dança do céu negro)

Route 66

     Parei o carro em Chicago, só para ter o gostinho de ver o começo da “Route 66”. Já passava da meia-noite e o céu estava claro e limpo, e eu nunca tinha visto tantas estrelas. Era noite de lua cheia e a estrada se estendia branca à frente. Por quilômetros a única coisa que se via era a estrada nevada e os campos nevados e neve caindo por todos os lados. Em algum lugar à frente, fogos de artifício explodiam no céu estrelado, brilhando ao longe. Era noite de ano-novo, todos comemoravam nesse grande país. Eu deveria estar em casa, brindando e comemorando com minha família, recebendo elogios e abraços, mas não, eu estava a mais de 6.500 quilômetros de casa, em um país completamente diferente de tudo o que havia no meu, onde tudo me encantava, me excitava, me deixava tonto, tantas eram as informações e emoções. Meu objetivo era Santa Mônica, Califórnia. Entrei novamente no carro (que no momento exalava um cheiro forte de gasolina) e parti para a costa Oeste. Liguei o rádio e curti The Doors, The Vines e Pink Floyd até o posto mais próximo.
     Aquele posto parecia um oásis no meio do nada – e era o primeiro sinal de vida que eu via até agora-, tinha tudo que alguém precisava em uma viagem como a minha. Mas quebrou um pouco a minha viagem surreal, foi como se eu voltasse no tempo. Voltasse não. Como se eu tivesse ido para o futuro e as únicas coisas que me ligavam ao passado, eram as músicas e o velho Dodge. Gastei alguns dólares em gasolina, e o cara me disse que o tanque estava vazando, mas ficaria mais caro consertá-lo do que gastar alguns dólares a mais em gasolina. Ele encheu uma garrafa com gasolina pra mim e eu enrolei em alguns trapos velhos, para não esfriar demais. Entrei na loja de conveniências do posto, a única coisa que se via, em destaque, eram Coca-Colas e Ruffles de uma porção de sabores. Fui direto ao caixa e pedi um maço de cigarros baratos. O cara pegou meu dinheiro sem fazer um ruído e me entregou o maço. Pulei no carro e arranquei. Alguns quilômetros adiante, um cara alto e magro estendeu o dedão, ele devia estar congelando. Parei o carro no acostamento, alguns metros a frente, e logo o cara entrou, agradecendo e esfregando as mãos. Perguntei seu nome e de onde vinha e o cara começou a falar. Ele tinha um modo muito próprio de falar. Não as palavras que usava, mas o modo como movia os lábios. Ele tinha um sotaque arrastado, mas na verdade eu acho que tinha bebido um pouco. “Meu nome é Burrows”, disse ele. “Cara eu estou indo para o Kansas, minha garota está sozinha há muito tempo. Eu estava rodando o país, mas fiquei sem grana e decidi voltar.” Ele falou por horas. Falou de música, livros, filmes, falou de Nietzsche, Bukowski e Kerouac. Falou, falou e falou. Deixei ele no Kansas, mas sem sair da “Route”.
     Chegou o momento que tive que encostar o carro no acostamento, pois a neve estava tão densa e forte, que não saía do para-brisa. Tranquei as portas e me recostei no banco de trás. Quando o sol chegasse, poderia andar tranquilamente sem o empecilho da neve.
     Acordei com o sol batendo em meu rosto. A neve já não estava tão grossa e a nevasca já havia passado. Era um lindo dia aquele 1º de janeiro, parecia um cenário de um filme bem elaborado. A neve continuava estendendo-se sobre a pista, branca, mas suja de tantos pneus que a haviam achatado. Os fogos já haviam cessado, mas as celebrações não. Continuei dirigindo para o oeste, só eu e meus cigarros e o Syd Barrett berrando nos alto- falantes. Estava ansioso para ver Dane e para chegar à cidade feita de sonhos, onde a neve é uma realidade próxima, mas distante, e onde eu pudesse ver o pôr-do-sol nas areias douradas e ouvir o barulho do oceano logo adiante. E quando alguém me perguntasse porque eu vim de outro país até aqui, eu não precisaria responder. Eu apontaria o pôr-do-sol no horizonte e todas as perguntas seriam respondidas.

- Barbara Schuch

segunda-feira, 5 de março de 2012

Começar...

Começar com o primeiro texto. Aquecer os motores, dar a partida e seguir em frente.
Um texto puxa outro, puxa outro e outro puxa texto-outro.
E assim os textos vão surgindo
com a participação de todos neste blog.

Esta é a ideia. Divulgar a produção textual dos alunos,
feita em sala de aula.

Não vale copiar o texto do outro, ou melhor: é permitido a inspiração no outro.
E a isso chamamos de intertextualidade.

Pode se inspirar em jornais, telejornais, seriados, no mestre Machado (o de Assis),
Shakespeare, Chico Buarque, personalidades diversas, criadores anônimos,
na vó do Badanha, na Amy Winehouse, em colegas de classe, no cotidiano,
enfim... liberdade total!

Vamos lá. Foi dada a largada...

 Ari Meneghini (professor da 2305)